AD Belém SP Colunistas Geisel de Paula

A igreja doente

Imagem de David Mark por Pixabay

Texto base: Isaías 6.9,10; 29.13 e Mateus 15.7-9

Introdução

            Em uma reportagem recente da jornalista australiana Elle Hardy, que passou os últimos anos viajando por doze países (inclusive o Brasil), tentando entender “como o pentecostalismo cresceu tão rapidamente e por que se tornou tão significativo”, dando origem ao livro “Beyond Belief: How Pentecostal Cristhianity is Taking Over the World” (Além da Crença: Como o Cristianismo Pentecostal Está Dominando o Mundo – em tradução livre do inglês). De acordo com ela, os pentecostais no mundo já alcançaram 600 milhões de fiéis e até 2050 serão 1 bilhão, ou, 1 em cada 10 pessoas na Terra. A fé pentecostal está convertendo cerca de 35.000 seguidores a cada dia no mundo todo. O Brasil é ponta-de-lança desse movimento, mas fica a pergunta: por que não conseguimos ainda ser uma igreja relevante para um mundo caído?

Aprendemos, através da Palavra de Deus, que profetas são aqueles que são colocados como porta-vozes de Deus nesta terra. Deus fala? Sim. Não com uma voz audível de trovão como no batismo de Cristo, pois para isso hoje temos a Bíblia Sagrada, nossa regra de fé e prática, a verdadeira Palavra de Deus. Além disso, fala usando os seus servos, os profetas, para bradar ao mundo a sua vontade, sempre de acordo e em consonância com a sua Palavra. Profetas não falam por si, não pensam por si, não têm vontade própria. Eles são extensões da vontade de Deus na Terra, são os seus representantes, e precisam ser moldados segundo o seu propósito. Eles precisam ser transformados antes de serem usados de acordo com a vontade divina. Aconteceu com todos (Jacó, Moisés, Elias, Eliseu, etc.), e aconteceu também com o profeta Isaías.

            Antes de qualquer coisa, é preciso saber que para estar pronto para ser voz de Deus na Terra, é preciso ser transformado pela sua vontade, faz-se necessário passar pela purificação do encontro com Ele. A Bíblia diz que o chamado de Isaías como profeta deu-se logo após a morte do rei Uzias. Isaías era primo de Uzias, e com certeza tinha uma certa entrada e mordomia no palácio. Com a morte do rei, Isaías perde o seu comodismo, e isso o leva quem sabe a repensar o seu relacionamento com Deus, e por isso vai ao templo. Talvez em um momento de insegurança quanto ao seu futuro e de instabilidade na sua vida, ele vê a Deus. A visão de Deus é terrível para Isaías! Ele percebeu que o seu Deus ia além do templo, pois só a borda de seus vestidos enchia o lugar. Seu Trono e todo o seu Ser não comportavam no edifício. A visão ia além da religiosidade vigente. A visão de Isaías foi além, e ele viu seres angelicais chamados serafins, que estão relacionados à santidade de Deus, voando e clamando “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória”! Os umbrais moveram-se e a fumaça encheu o ambiente. Tudo de repente ficou turvo e instável, e Isaías enxergou sua própria pecaminosidade. Assim também hoje, a igreja brasileira precisa enxergar seus erros e rever os seus valores.

            De repente, o “ai daquele” de Isaías se tornou o “ai de mim”. Esse é o momento crucial em sua vida e ministério. A chamada já existia, mas faltava a chancela do Espírito, o fogo na vida que iria mudar todo o seu ser. Esse é o momento em que o homem encontra-se com Deus. Sua vida é transformada pela revelação do Divino.

__É o Jaboque que transforma Jacó (suplantador) em Israel (aquele que luta com Deus);

__É a sarça que arde, mas não se consome que Moisés viu no deserto;

__É a voz que o menino Samuel ouviu, sem saber que era o próprio Deus a lhe falar;

__É a constatação da mulher samaritana de que está diante do Messias aguardado;

__É o filho pródigo, enfim percebendo que na casa do pai nunca lhe faltou nada;

__É Dimas (segundo a tradição), o ladrão na cruz, dando conta de que Deus estava ao lado, onde faz uma última súplica desesperada por perdão e lembrança, e é lembrado.

            Esse é o encontro de Isaías com o Eterno. Cada um que tem um encontro com Deus sai diferente, tem a sua vida transformada e nunca mais é o mesmo. Eu tive a minha. Você teve a sua. E se você ainda não teve, não há como continuar ou exercer o seu chamado sem antes passar por esse processo, por essa nova vida, é por isso que Jesus chama de novo nascimento (Jo 3.7). A santidade de Deus nos humilha. A visão do Santo encurva o nosso ego. Enxergamos as nossas mazelas, vemos com clareza o pecado que nos cerca e que cerca a sociedade onde estamos inseridos, como Isaías viu. A visão de Deus faz com que olhemos para dentro. E o que encontramos dentro não é nada agradável, não é bonito de se ver, nem cheiroso. Faz-se necessária então uma limpeza, não com cândida ou sabão, mas com fogo, pois existem algumas impurezas que só são eliminadas com o fogo da purificação. Então voa um serafim, pega uma brasa viva com uma tenaz, tirada do altar da presença de Deus, vem até você e toca em sua boca, os seus lábios, para purificá-los de toda iniquidade e de todo pecado.

            Eu creio que deve ter algo bem errado com o nosso discurso. Entre o que falamos e o que fazemos. Entre o que falamos e o que somos. As pessoas que tiveram um encontro com Deus no Antigo Testamento foram mudadas para sempre. Aqueles que tiveram o seu encontro real com Cristo também sofreram uma drástica transformação. A mulher samaritana virou uma missionária entre os seus, já Zaqueu propôs pagar quatro vezes mais a quem havia defraudado e Lázaro agora pelo seu testemunho de ressurreição, levava muitos até Cristo. Impossível ficar indiferente. Impossível permanecer o mesmo. Impossível ficar igual. Após o processo acontecer, aí sim, você está pronto para ouvir Deus falar: A quem enviarei, e quem há de ir por nós”? Deus não joga palavras ao vento, Deus não dá pérolas aos porcos, Ele não fala a ouvidos moucos. A Palavra precisa prosperar. E isso só acontecerá quando pudermos responder a plenos pulmões: Eis-me aqui, envia-me a mim”. Antes disso, não podemos sair como voz de Deus na Terra.

Aplicação

            Isaías profetiza contra a hipocrisia de Judá. O povo de Deus acha que está tudo bem, mas não está. Acha que o pouco é suficiente, mas não é; acredita que a aparência é tudo o que importa, mas não. Deus requer mais. Eles precisam ouvir de verdade, e não apenas escutar. A Palavra precisa descer ao coração, fazer morada, criar raiz. O povo ouve e não entende, vê, mas não percebe. Judá é um paradigma de nossa sociedade pós-moderna. A igreja evangélica brasileira, só ouve aquilo que quer ouvir, e só detém o olhar naquilo que lhe apetece. Os crentes precisam ouvir o que Deus quer lhes falar, e não serem confortados por palavras gentis de caixinha de promessas; confrontados e não confortados; precisam ver a situação de quem está à sua volta, e não olhar apenas para o seu próprio umbigo. Ver com os olhos de Deus e não com os seus. A igreja na verdade precisa se converter. Temos que pregar mais para crentes do que para os ímpios, pois o pensamento de muitos dentro dos templos está equivocado. Você não é o centro. Deus é o centro. A igreja do século XXI necessita voltar atrás e encontrar o local onde perdeu o seu dom. As pessoas de igreja são hipersensíveis no que diz respeito a elas mesmas e insensíveis no que tange ao próximo e ao caráter de um Deus Santo. Só importa o “vem a mim…”, o “teu reino” sempre fica para depois. Tudo isso é, na verdade, muito lamentável.

Eu tenho certeza que Jesus não citou o profeta Isaías à toa, quando disse: “Hipócritas, bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo: Este povo honra-me com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim. Mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens” (Mt 15.7-9). Esta seguinte citação vem de Isaías 29.13: Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim e, com a boca e com os lábios, me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim, e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído”. Note que existe honra, mas não vem do coração, existe adoração, mas da maneira e do jeito errado; existe temor, mas não da pessoa e sim em preceitos equivocadamente colocados. Assim como a igreja brasileira de hoje que se declara cristã, mas não até o sangue, vai ao templo, mas o foco não está lá, louva com mãos levantadas e olhos fechados, mas não há mudança de vida e caráter, o temor até existe, mas quase sempre é esquecido quando preferem olhar para o outro lado, como na Parábola do Bom Samaritano quando o sacerdote e o levita (religiosos) preferem passar de largo.  

Deus busca profetas para falar a ouvidos moucos, olhos míopes, mentes embotadas e de gente enfastiada por comida, corações gordos. Quando Deus chama alguém, ele não olha para as condições do chamado, e sim para a sua capacitação. O profeta Elias percebeu de longe, que o problema do povo de sua época era a idolatria; o profeta Isaías precisou ser convertido e ficar em chamas para “queimar” a outros, e o profeta Amós, o boiadeiro, pessoa simples e que não fazia parte da elite religiosa (como Samuel e Ezequiel) e social (como Isaías e Daniel), mas ele tinha aquilo que era mais importante: uma mensagem a queimar dentro de si. Em Amós 8.11, ele diz: Eis que vêm dias, diz o Senhor Jeová , em que enviarei fome sobre a terra, não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do Senhor”. O problema de hoje não é comida. É fome! Os crentes precisam ir ao culto com fome de Deus, e não do que ele pode dar, com os corações abertos a ouvir e serem transformados, e não apenas confortados.

O Brasil evangélico segue, em minha opinião, o mesmo caminho que a igreja norte-americana e europeia em passos firmes para a secularização e esfriamento espiritual, ainda que sem alcançar uma prosperidade social em suas vidas, mas como que recebendo uma overdose de muletas espirituais de diversas formas de atalhos para a aceitação do Evangelho em suas vidas. Temos a maior variedade de Bíblias do mundo, teorias que abraçam qualquer tipo de pensamento editorial, louvores antropocêntricos que adulam e afagam os ouvidos de quem ouve, além de uma liderança evangélica fraca institucionalmente, muitas vezes mais preocupada com os fatores políticos e de preservação de poder do que com vidas a serem salvas pelo amor de Jesus.

Todas as vezes que penso nisso, vem à mente a sentença de Jesus para a igreja de Laodicéia, que do ponto-de vista dispensacionalista, trata-se da igreja no período da pós-modernidade, ou seja, a realidade que vivemos hoje. No relacionamento com Deus, existem sempre dois lados. O nosso e o dele. Do nosso lado podemos estar iludidos com aquilo que vemos e entendemos como um ministério bem-sucedido e com sucesso. Olhe essa cena: “Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta(Ap 3.17). Essa é uma visão de uma igreja que olha coisas e não pessoas, que mede o sucesso no ter e não no ser. Mas existe o outro lado da história, o lado de Deus. Ele mostra a realidade da ilusão que nós criamos para nós mesmos. “(e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu), aconselho-te que de mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças, e vestes brancas, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez; e que unjas os olhos com colírio, para que vejas. Eu repreendo e castigo a todos quantos amo; sê, pois, zeloso e arrepende-te” (Ap 3.17-19).

Laodicéia é a igreja que deixou Jesus do lado de fora. Ele está a bater e chamar por nós para que abramos a porta e o deixemos entrar. “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e com ele cearei, e ele, comigo” (Ap 3.20). Laodicéia não sabe, mas está doente e precisa de cura. Assim como ela, a igreja brasileira está inchada, o coração cheio de gordura, os ouvidos surdos, os olhos míopes e a mente voltada para aquilo que é transitório e material, Laodicéia somos nós!

Até quando Senhor? Essa foi a pergunta que Isaías fez a Deus no âmbito de sua missão. Por que Deus o enviara e ao mesmo tempo o coração do povo permanecia endurecido? Porque existem situações que são resolvidas apenas com juízo. O fogo é que purifica e quando o fogo passa, a impureza queima e resta apenas o que é puro e valioso. No fim, sempre há salvação para o resto, ou, em palavras bíblicas, para o remanescente.

Conclusão

            A Igreja com “I” maiúsculo continuará firme rumo ao alvo que é Cristo, separada, purificada e adornada para o Noivo; a igreja com “i” minúsculo continuará crescendo, mas a que preço? Nós, pentecostais, temos tudo, que, para com nossas vidas transformadas, transformemos também a sociedade à nossa volta, mas para isso precisamos desenhar um círculo em nossa volta e com coragem dizermos a Deus: “Comece em mim, Senhor”! Eu sou o primeiro que necessita de ser purificado pelo fogo para estar em chamas para ti. Uma igreja doente precisa de um Deus que sara. Uma igreja doente precisa de profetas com remédio amargo. Precisamos nos voltar para a Palavra de Deus, e procurar vivê-la em nossas vidas, precisamos buscar mais o Abençoador do que as bênçãos dele, mais a pessoa de Jesus, do que aquilo que Ele pode dar. Devemos nos lembrar de que o mais precioso Ele já nos deu: vida eterna. Aqui e agora. Somos participantes do Reino hoje, e não quando morrermos. E o Reino é espiritual e não material. Somos cidadãos do Céu hoje e não na glória. E só estaremos sadios espiritualmente quando deixarmos que Ele tome e preencha cada espaço dentro de nós, que o nosso querer seja o dEle, e que a nossa vida queime por Ele e que assim todos a nossa volta nos vejam queimar, e quem sabe, também se incendiar no fogo de Deus!

Geisel de Paula

Geisel de Paula é repórter do site e jornal Ceifeiros em Chamas, bacharel em teologia pela Faesp.