Colunistas Geisel de Paula

A Páscoa na História

            Quando Deus quer se comunicar com o homem, Ele escolhe artifícios que lhe sejam claros na comunicação da mensagem, para que a criatura saiba o que o Criador deseja dela, e assim estabelecer um relacionamento. Algumas dessas tentativas são, de certa forma, comuns em todas as culturas, como o conceito de templo, sacrifício, altares e até mesmo a circuncisão. Mas Deus usa com o seu povo escolhido algo significativamente singular: a pena substitutiva.

            Quando Deus manda seu servo Abraão sacrificar o que ele tinha de mais precioso, Isaque, o patriarca parte para Moriá resoluto em cumprir a ordem de Deus. Ele tinha fé de que o Senhor era poderoso para restituir das cinzas seu filho. Quando o cutelo foi levantado contra a vida do jovem exposto no altar, o anjo bradou e impediu que Abraão levasse a cabo o sacrifício. Ele então olha para o lado e vê um cordeiro preso pelas pontas nos arbustos. Não é o homem que vai se sacrificar para Deus, e sim o Todo-poderoso vai prover um sacrifício para o homem. Nasce assim a ideia da substituição, o que conheceríamos mais tarde como justificação.

            Nos preparativos dos hebreus para sua saída do Egito em direção à terra prometida, Deus institui a Páscoa (Pessach em hebraico, ou passagem). Para eles, significa a libertação da escravidão e do jugo. Mas o significado vai além. O anjo da morte iria passar pelo Egito, a fim de ceifar a vida de cada primogênito egípcio. O povo então deveria assar um cordeiro e comê-lo com sua família e amigos; no dia quatorze do mês, juntamente com ervas amargosas e pães asmos, e não podia sobrar algo para o dia seguinte. O sangue do cordeiro morto deveria ser aspergido nas ombreiras e nas vergas das portas como um sinal, para que o anjo da morte passasse pela casa e não tirasse a vida de seu primogênito. A casa que não tivesse o sangue, não seria poupada. E assim foi. A última praga mudou o coração de Faraó e ele permitiu, enfim, que o povo saísse para adorar a Deus. O povo estava livre.

            Esse acontecimento tornou-se uma festa judaica, com uma data móvel a cada ano, onde um animal era sacrificado e as famílias reuniam-se para celebrar a Páscoa. E foi no período de uma dessas festas que Jesus morreu. A simbologia é muito clara para nós cristãos. Jesus é o Cordeiro pascal que precisava ser oferecido em nosso lugar, a fim de morrer por nós e aspergir seu sangue na cruz do calvário, em substituição a nossa pena, e pagar por nós o preço de morte. A Páscoa naquele ano cairia no sexta-feira, pois Jesus comemora no jantar da quinta, já sexta no calendário judaico. Jesus permanece seis horas na cruz e morre às três horas da tarde, ao entregar seu espírito. O sangue de touros e cordeiros nunca pôde realizar uma propiciação verdadeira, mas, agora, Cristo conseguiu. Ele é o Cordeiro de Deus, perfeito e sem mácula, que atinge a perfeição que a justiça de Deus requer. Os judeus comemoram a Páscoa até hoje como era na época de Moisés, com exceção do sacrifício do cordeiro. Mas, nós cristãos, não! Ela tem um novo significado para nós.

            A Páscoa para o cristão é a comemoração do fato de Jesus ter morrido por nossos pecados, e principalmente de ter ressuscitado ao terceiro dia! Aleluia! A ressurreição de Cristo é a nossa Páscoa. Cristo é o nosso substituto; Cristo é o carneiro preso pelas pontas que Abraão viu; Ele é o Cordeiro que verteu seu sangue e, a partir de agora, o anjo da morte não tem poder sobre nós. Através de seu sangue, não temos mais a condenação eterna que merecíamos. Estamos justificados diante de Deus! Assim como João Batista pôde antever: “Eis aí o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” Jesus é o nosso substituto eterno! Aleluia!

            O mundo não sabe comemorar o feriado da Páscoa. Satanás perverteu seu verdadeiro sentido. Esta festa não deve ser simbolizada pelo coelhinho, nem ovos de chocolate ou abstenção de comer carne. A cruz é o centro para onde todos devem olhar. Nem mesmo as igrejas evangélicas comemoram a Páscoa do jeito certo. Cristo nunca pediu que nos lembrássemos de seu nascimento, o que fazemos em todo Natal; mas Ele pede que sempre nos lembremos de sua morte por nós: “Fazei isso em memória de mim”. A páscoa deve ser a maior data do cristianismo. O maior evento da Igreja. A maior festa a ser celebrada, pois através do supremo sacrifício de Jesus por nós, hoje somos livres, somos salvos da condenação e temos paz com Deus.

            Jesus não está mais no túmulo, como todos os outros deuses desse mundo. Ele ressuscitou! A pedra foi rolada, não para quem estivesse dentro pudesse sair, mas para provar de que não havia nada em seu recinto. Os discípulos tiveram dificuldades de encarar esse Cristo ressurreto. Dois deles, no caminho de Emaús, não o reconheceram até o partir do pão. Esse era um momento de comunhão, e é exatamente isso que nós temos com Deus agora, comunhão. A ira de Deus não nos alcança mais. Estamos para sempre justificados pela sua ressurreição. Jesus Cristo é o motivo de nossa adoração para sempre.

            O véu da separação rasgou-se de alto a baixo, para provar que a iniciativa tinha que vir de cima, e não de baixo. A comunicação de Deus com o homem, a partir de agora é direta, sem intermediários e nem barreiras. Essa foi a maior conquista que Jesus proporcionou. O elo que fora rompido no Éden pelo pecado, agora era restabelecido pela cruz. Um ato de ignominia, que era ver Deus agonizante na cruz em uma sexta-feira, foi substituído pelo sepulcro vazio na manhã gloriosa de domingo. É exatamente isso que nós comemoramos nessa manhã de domingo quase dois mil anos depois. A vitória de Cristo sobre o pecado, a morte e o inferno. E a conquista dele se tornou a nossa; por isso estamos aqui. Podemos olhar para o céu e dizer: Obrigado Jesus!

Geisel de Paula

Geisel de Paula

Geisel de Paula é repórter do site e jornal Ceifeiros em Chamas, bacharel em teologia pela Faesp.