História

Assembleia de Deus paulista: Os primórdios

Família de Daniel Berg na década de 1920

Introdução

O movimento pentecostal crescia no mundo todo nas primeiras décadas do século XX; irradiava de Los Angeles, passando por toda América do Norte e chegava ao Brasil. Vindos de navio dos EUA, dois missionários suecos com os corações queimando pela obra pentecostal, desceram em Belém do Pará, e depois de aprenderem a língua portuguesa, começaram a propagar o Evangelho Pentecostal para quem quisesse ouvir. O Brasil era um país com uma comunidade católica extremamente dominante; por isso, foi muito difícil nos primeiros anos romper esse ciclo vicioso. Mas a mensagem surtiu efeito e logo pequenas congregações começaram a serem abertas, primeiramente no Norte e depois no Nordeste do Brasil, regiões historicamente mais afetadas pela pobreza. Depois de mais de uma década da chama pentecostal ser acesa no Sudeste, os missionários fundadores, Gunnar Vingren e Daniel Berg, olharam para o Sul do Brasil, mais industrializado e desenvolvido que o Norte.

Essa chama chegou ao Estado de São Paulo em 1910, trazida pelo missionário Luigi Francescon, fundador da CCB (Congregação Cristã no Brasil), que, vindo da Argentina, chegou a São Paulo naquele ano; em seguida, passou alguns meses no Paraná e retorna a São Paulo, onde conseguiu 11 pessoas que aderiram à sua mensagem. O início da CCB foi muito parecido com a AD no Norte. Na década de 20, não temos registros confiáveis da membresia das duas igrejas, mas, na década de 30, enquanto a AD contava com cerca de 13.000 membros, a CCB já totalizava cerca de 30.000. As posições só se inverteriam na década de 50. Mas isso é outra história.

O início das Assembleias de Deus no Estado de São Paulo

Em 1923, o missionário Gunnar Vingren visitou a capital paulista pela primeira vez, retornando de uma viagem ao Estado de Santa Catarina. Nessa ocasião, ele pregou na Congregação Cristã no Brasil (ele e Luigi Francescon eram amigos), e nessa ocasião conheceu Emílio Conde, que na época pertencia àquela denominação. Vingren fez uma segunda visita à capital paulista em 1926, dessa vez, acompanhado pelos missionários Samuel Nystrӧm, Nels Julius Nelson, Simon Lundgren, e do secretário da Missão Livre Sueca, Dr. A.P. Franklin. O missionário Samuel Hedlund escreveu, em 1934, na edição sueca do livro Despertamento Apostólico no Brasil que, no ano de 1923, “alguns crentes em Pernambuco resolveram se mudar para a cidade de Santos, no Estado de São Paulo, por causa da crise econômica no Norte, para procurarem trabalho. Depois de sua chegada, começaram cheios de agradecimentos pela direção de Deus, a testificar da salvação e muitos ficaram interessados. Pela direção do Espírito Santo, o irmão Daniel Berg e família vieram a Santos em 1924. Começaram com cultos públicos e Deus abençoou o seu trabalho, salvando, batizando com o Espírito Santo e curando os enfermos”.

 Emílio Conde afirmou no livro História das Assembleias de Deus no Brasil, de 1960, que a história registra o dia 05 de maio de 1924 como data que se iniciou a proclamação do trabalho pentecostal na cidade de Santos, onde se estabeleceu a primeira Assembleia de Deus no Estado de São Paulo.

Entre os primeiros crentes que chegaram a Santos, estavam Vicente Limeira, Hermínia Limeira e Octávio Corrêa. Os primeiros cultos realizados na cidade praiana foram na Avenida Rei Alberto. A primeira pessoa convertida foi Amélia Barreiros, filha de um fazendeiro. O pequeno grupo de crentes não tinha pastor. Eles se reuniam, cantavam hinos, oravam, testificavam e pediam ao Senhor que lhes enviasse um pastor. Deus ouviu suas orações e enviou-lhes o missionário Daniel Berg, que, durante algum tempo, serviu ao Senhor naquela cidade. Ele efetuou o primeiro batismo em águas no Estado, no primeiro domingo de novembro de 1925, com cinco novos crentes, entre eles, Amélia Barreiros, Ordolina de Oliveira e irmã Bertolina. Na oportunidade, Berg pregou para uma grande multidão.

Só depois de dezesseis longos anos em que a mensagem pentecostal havia chegado ao Brasil, São Paulo foi alcançado pelas chamas que já haviam se alastrado inclusive pelos estados do Sul. Quando Daniel Berg voltou da Suécia, em outubro de 1927, sentiu-se dirigido pelo Senhor de começar uma obra na cidade de São Paulo, que tinha um milhão de habitantes na época.[i] Ao chegar à grande cidade industrial, Daniel Berg não conhecia ninguém, nem trazia o endereço de qualquer pessoa, mas enxergava uma cidade de alto potencial, pois a capital paulista já era a segunda cidade mais populosa do país, só ficando atrás da cidade do Rio de Janeiro, capital do Brasil. Ele, então, com pouco dinheiro, resolveu alugar uma casa em um dos lugares mais humildes da cidade, o bairro de Vila Carrão, naquela época quase totalmente despovoado. O primeiro culto teria ocorrido no mesmo dia da chegada do casal Berg, 15 de dezembro de 1927, cujo acontecimento ficou marcado na história como sendo a data oficial da fundação da igreja. Para participarem desse culto, convidaram o casal de missionários suecos Simon e Linnéa Lundgren. Começaram com cultos em sua casa, deixando a porta aberta e ali cantavam hinos de louvor a Deus. Uma senhora passou, ouviu o hino, parou e escutou. Ela foi convidada a entrar e lhe testificaram de Jesus e voltou no dia seguinte com toda sua família e mais alguns vizinhos. Assim, Jesus começou a salvar almas e a batizar com o Espírito Santo.

 Certo dia, quando estavam orando, uma senhora que ouvira os hinos bateu à porta. Quando atenderam, ela perguntou se ali moravam crentes. Diante do sim, ela revelou que tempos antes havia aceitado Cristo como Salvador na Assembleia de Deus em Maceió. Depois se transferira para São Paulo, e desde então passara a pedir a Deus que enviasse um obreiro para aquela grande cidade. E a resposta ali estava, disse ela. Na família da mesma, havia pessoas que estavam sedentas de salvação, pois logo receberam a Palavra de Deus com muita alegria. Muitos vizinhos começaram também a participar das reuniões, recebendo de bom grado a Palavra do Senhor, aceitando a Cristo.

O irmão Daniel alugou então um salão para os cultos e muitos vieram para ouvir a Palavra de Deus. O padre católico espalhou o boato de que os protestantes seriam presos. Houve muita resistência, tanto dos incrédulos como dos crentes de outras denominações, mas Deus guardou os seus servos. Almas foram salvas também nos cultos ao ar-livre.

Alguns dias depois, um grupo de crentes da Congregação Cristã no Brasil, que antes tenazmente combatia os membros da Assembleia de Deus, passou para a nova igreja por motivo de doutrina. Entre eles estavam: Ernesto Ianone, e esposa, Josefina; Vitaliano Piro e esposa; seu irmão José Piro e esposa, irmã Elvira; Filomena Salzano e os filhos Miguel e Luiza Salzano. Ainda faziam parte desse grupo, familiares de Regina Haleplian Antunes. Sua mãe, Angelina Barreta, a avó, Rosa Augusta Barreta e seu irmão, Pedro Barreta Haleplian. Mais tarde, Daniel Berg passou a dirigir cultos nas casas de Ernesto Ianone e da irmã Angelina Barreta. Um dos convertidos por esse tempo foi Francisco Cavalino. No dia 04 de março de 1928 foi efetuado o batismo dos três primeiros novos convertidos.

Em uma publicação da Revista A Seara, de 1979, a irmã Angelina, testemunha ocular dos fatos, relatou: Certo dia Daniel Berg ia caminhando pela Avenida Celso Garcia, na altura do bairro do Tatuapé, quando ouviu o cântico de alguns hinos. Parou e escutou melhor. A seguir, entrou na sala onde um grupo de crentes estava reunido. O dirigente era o irmão Ernesto Ianoni. Eles haviam saído de outra denominação que pregava ser a prática do ósculo e o uso do véu, entre outras coisas – mais importante do que a santificação e o bom testemunho de uma vida liberta dos vícios. Eles acreditavam que Jesus “ia libertando” e as pessoas (membros) continuavam bebendo, fumando, etc. e esses irmãos não aceitaram essa proposição. Daniel Berg então fez uma declaração das principais doutrinas da Assembleia de Deus. Eles acabaram entregando o trabalho para o missionário Daniel Berg e todos passaram a congregar no salão, próximo do bairro da Penha.

Com o aumento do número de pessoas, não foi mais possível reuni-los naquela pequena sala. Portanto era necessário alugar um salão para os cultos. Com muito esforço, a igreja alugou um salão na Avenida Celso Garcia, 1.209, onde funcionou a primeira sede. Porém, a igreja continuou a crescer, de modo que o salão na Avenida Celso Garcia tornou-se pequeno. Resolveram então mudar a igreja para a rua Dr. Cândido do Vale, 41, não muito distante da primeira sede. Acompanhando o ritmo progressivo da cidade, a igreja florescia e multiplicava seus trabalhos. Para atender esse progresso, era necessária a construção de um templo. O local escolhido foi a Rua Vilela (localizado no bairro do Tatuapé). O templo foi inaugurado em 1930. (continua…)


[i] NOTA DO CEIFEIROS: Segundo o Censo de 1920 a cidade de São Paulo possuía 579.033 habitantes. Pode ser que o escritor [missionários que escreveram o livro Despertamento Apostólico no Brasil] se referia ao Estado de São Paulo.

Geisel de Paula

Geisel de Paula

Geisel de Paula é repórter do site e jornal Ceifeiros em Chamas, bacharel em teologia pela Faesp.