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Ceifeiros Entrevista: A Missionária Kelem Gaspar

Missionária Kelem Gaspar

A missionária Kelem Gaspar trabalha com alguns dos segmentos menos evangelizados do Brasil. Dentre os oito segmentos catalogados, ela atua entre os ribeirinhos, sertanejos, quilombolas e indígenas. A experiência de duas décadas no campo missionário já lhe forneceu subsídios para escrever três livros. Ela fundou a escola Pakau Oro Mon, de treinamento para mulheres vocacionadas a trabalhar entre os segmentos mencionados. Dirige também a Associação Missionária Campos Brancos. É casada com Durcival Guedes e mãe de Eduarda Gaspar.

Seu livro, editado pela CPAD, tem um nome curioso: Pakau. O que significa?

Pakau foi o nome que recebi na aldeia Pacas Novas e significa “aquela que luta com onças”. Foi uma homenagem dos índios e uma referência à minha coragem e determinação de ir solteira, muito jovem, e viver sozinha em uma comunidade indígena.

Quantos anos você tinha quando viveu esta experiência e qual foi a reação de seus pais?

Quando o Senhor me chamou para a obra missionária, eu tinha 15 anos de idade. Não ouvi uma voz, não recebi uma visão, não houve algo de sobrenatural. Apenas ouvi a mensagem pregada por uma missionária que trabalhava com índios; olhei para as minhas mãos, e estavam vazias. Então, ofereci-me para acompanhar aquela missionária que esteve ministrando em minha igreja; fui passar com ela o meu período de férias.  Quando voltei da aldeia, estava decidida a dedicar minha vida em prol da pregação aos povos indígenas. Conversei com minha mãe; na época eu tinha apenas um irmão pequeno e era a única filha. Expliquei para ela que o lugar mais seguro do mundo era o centro da vontade de Deus, não importava a geografia, porque onde eu estivesse, estaria segura.  Minha mãe deixou-me ir para os primeiros 30 dias e quando voltei, passei dos 15 aos 19 anos de idade preparando-me para voltar definitivamente. Durante esses quatro anos, minha mãe viu que o desejo não diminuiu, que aquele fogo não se apagou, e que a vontade de dedicar minha vida a missões ficava cada vez mais forte com o passar dos anos.

Fale um pouco do perfil da população indígena com que você trabalha.

Acho importante frisar que não existe aquela comunidade igualitária, fraterna, feliz, que a televisão mostra. Os índios são, em sua maioria, animistas; cultuam elementos da natureza; alguns têm uma relação muito estreita com o mundo espiritual a ponto de um deles, certa vez, comentar comigo: “Acredito que exista um Deus, que Ele é bom e superior a todos os espíritos maus que nós conhecemos e que controlam nossas vidas, mas não sei onde Ele mora, não sei seu nome e não posso chamá-lo para que me defenda”. Portanto, posso resumi-los como uma comunidade escrava, perdida, sem direcionamento espiritual, onde não há fraternidade. Em uma das aldeias em que trabalhei, por exemplo, se uma família de cinco pessoas caçasse um animal grande, de 100 quilos, por exemplo, eles comiam aquela carne em um só dia. Você pode pensar que é impossível cinco pessoas comerem 100 quilos de carne. Mas eles comiam o quanto podiam. Saiam por um instante para vomitar e voltavam para continuar comendo pelo simples fato de se negarem a compartilhar com outras pessoas. O fato de eles matarem uma segunda criança de um parto de gêmeos, por questões espirituais, ou matarem uma recém-nascido com alguma deficiência mental, tem uma resposta. Perguntei a um pai: Por quê? Não é seu filho? Ele me disse: “Como ele vai me retribuir? Vou alimentá-lo e ele não vai ter como me retribuir”. Ou seja, nada é feito por amor, pela fraternidade. Esse viver em comunhão e esse sentimento de comunidade não existem. Isso só muda com a chegada do Evangelho, mas, até que isso aconteça, tudo é muito preocupante e triste.

Como o missionário deve se comportar de modo que ele anuncie o Evangelho e não altere o modo de vida do índio?

Na verdade, muitos missionários cometeram e ainda cometem muitos excessos. Por exemplo, não é trabalho da missão vestir o índio. Ele não relaciona a nudez ao sexo. Não vê a questão da pornografia na nudez. Então, durante muito tempo, relacionamos o trabalho evangélico com essa mudança comportamental. Eu sempre trabalhei com questões que resultavam em salvação. A nudez não implica em salvação. Ministrei muitos cultos para os índios desnudos, orávamos, celebrávamos a Cristo, participávamos da Ceia do Senhor sem nenhum problema, sem que eu relacionasse à conversão a roupa. Então, sempre trabalhei as questões que resultam em salvação. Por exemplo: Em uma das aldeias em que trabalhei, a mulher concebia e o homem é que ficava resguardado durante 40 dias. Ele não se levantava da rede, precisava de ajuda para se sentar, não comia comida gordurosa, enquanto que a mulher ia trabalhar, ia pra roça, carregava peso, fazia farinha e tudo mais. Então, a gente examina uma situação dessas. Resulta em salvação? Não! É apenas uma questão cultural, assim como a questão das pinturas corporais, da falta de roupa e uma série de outras questões. Então, se o missionário focar apenas naquilo que resulta em salvação, não vamos tocar no amago da cultura, não vamos mudar a forma desse índio se relacionar com a natureza, com sua família e em sociedade.  Aos poucos vamos ensinando como melhorar e tornar esse relacionamento mais eficaz, melhor para eles, sem a perda de sua identidade.

Fale sobre o perfil religioso das tribos indígenas.

Infelizmente, existe uma relação muito forte com o satanismo. Certa vez um índio me disse: “Acredito que os espíritos a quem eu obedeço e sigo, são maus; mas não tenho opção, não conheço alguém que me defenda”. Então, alguns são animistas, cultuam o céu, o sol, a lua, as árvores mais frondosas, e outros partem para práticas religiosas mais relacionadas ao satanismo. Cultuam claramente seres espirituais do mal, que eles mesmos reconhecem serem do mal, mas se eles não os obedecerem, consideram que alguma coisa terrível poderá acontecer; por isso rendem uma obediência cega. Em uma determinada aldeia em que trabalhei, quando o marido de uma mulher grávida comia algum animal que tinha espora ou algum peixe de pele, ai o pajé onde ele estava era avisado por uma entidade espiritual, e ia até a casa da mulher e dava o ultimato: “Teu marido comeu algo proibido e teu filho tem que morrer”. Após o parto, a criança era enterrada viva, e nada poderia ser feito, porque havia uma ameaça implícita de que algo ruim viria sobre a comunidade. É uma religião que os escravizava. Mas quando o Evangelho chega, aquele índio já não está sozinho. Ele já pode dizer a esse pajé que Jesus é o Senhor de sua casa e que nenhum mal vai acontecer a sua família. Então, o que nenhuma prefeitura ou ONG pode fazer, Jesus realiza.

Você chegou a ter algum problema com algum órgão do governo?

Aí entra um fator interessante: A necessidade do missionário se preparar para o trabalho. Dos 15 aos 19 anos de idade, fiz um curso de enfermagem e também magistério. Quando chegava às comunidades indígenas, eu me apresentava aos órgãos públicos como técnica em enfermagem e alfabetizadora. Então, supri duas necessidades que todas as comunidades indígenas tinham. Eu nunca entrei pela janela. Quando chegava, apresentava-me aos órgãos públicos e colocava ali meus conhecimentos a serviço deles; porém eu dizia: Os senhores me permitem ensinar as Escrituras, pregar o Evangelho e realizar cultos? Então, eu fazia esta aliança, porque havia a necessidade desses profissionais trabalharem com os povos indígenas. Nunca fui expulsa de lugar algum, até porque tinha essa visão cultural. Quando os fiscais voltaram após um ano de minha chegada, não encontraram os índios vestidos, sem pinturas e sem seus adereços. Sempre entendi e respeitei a identidade cultural deles.

Em quais projetos atualmente você tem se debruçado?

Há oito anos estou coordenando e presidindo a única escola feminina de missões no Brasil, que fica em Maracanã/PA, da qual sou a fundadora. Treinamos moças para alcançar os mais pobres e menos evangelizados da região Norte e Nordeste. Existem, infelizmente, 10 mil comunidades ribeirinhas para serem alcançadas; dois mil quilombos; seis mil assentamentos aonde o Evangelho ainda não chegou e 200 mil índios divididos em 121 tribos, onde nenhum missionário nunca esteve. Então, preparo essas moças, 10 por ano, e as envio de duas em duas. Chegamos nessas comunidades através da alfabetização, evangelização, reforço escolar, discipulado e alimentação, por que são lugares muito carentes; hoje temos 17 bases missionárias estabelecidas; 48 missionários em campo; 1.000 crianças e adolescentes atendidos em nossas 17 bases. Ressalto: sem nenhuma ajuda pública, porque escolhemos nos unir com quem tem aliança com Deus. E acredito sinceramente que quem deve financiar a obra missionária é quem vai morar no céu, aqueles que amam o Senhor. Quem reconhece a importância de seu sacrifício no Calvário, é quem deve investir na obra missionária.  Então, trabalhamos pela fé e até aqui o Senhor tem nos sustentado.

Aqueles que queiram apoiar o seu trabalho, como devem fazer?

Temos orado por isso; para que o Senhor levante parceiros, intercessores e divulgadores, alguém que possa nos ajudar, porque é uma tarefa árdua e difícil e existem poucas pessoas nessa linha de frente. Os irmãos podem me enviar um e-mail: [email protected]; meu site é missionariakelem.blogspot.com.br e www.missionariakelemgaspar.com.br ou nas redes sociais @kelemgaspar. Procurem-me, entrem em contato. Há pessoas que nos ajudam com ofertas que vão de R$ 10 a 50,00 por mês. O importante é que façamos juntos alguma coisa. Seja fiel no pouco, comece agora, ame o que Deus ama e certamente Ele vai abençoar você.

Dario Ferreira

Jornalista, editor do site e jornal Ceifeiros em Chamas.