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Enfrentando a verdadeira pandemia

Estamos a viver dias difíceis por causa da pandemia da COVID-19, uma doença grave, mas cuja letalidade é bem menor que a de outras pandemias, inclusive a recente do H1N1, ocorrida em 2009.

Entretanto, por motivos alheios à saúde pública, tal pandemia foi tratada como a oportunidade para se estabelecer um controle social amplíssimo, há muito pretendido por diversos segmentos no espectro sócio-político mundial, a nos indicar, claramente, que vivemos o período que Cristo denominou de “princípio das dores”, que é a preparação para a instauração do governo mundial, que será comandado pela Besta, que terá a seu lado o Falso Profeta, para legitimá-lo sob o ponto de vista espiritual (Ap 13).

Dentre as principais medidas tomadas para efetuar este controle social, está o nítido cerceamento das liberdades públicas, entre as quais se destacam a liberdade de ir e vir, a liberdade de expressão e a liberdade religiosa.

As medidas para restringir a circulação de pessoas com a pretensão de que, com isto, se diminua o contágio do vírus SARS-Cov-2 (o vírus causador desta peste), têm sempre em mira as celebrações religiosas, consideradas “perigosas”, enquanto que as aglomerações nos meios de transporte público são completamente ignoradas.

Tais circunstâncias trouxeram gravíssimos problemas para a Igreja, que, em grande parte, estava centrada nos templos em todas as suas atividades, o que, diga-se de passagem, não corresponde ao modelo bíblico instituído por Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo que, se não promoveu a abolição de templos ou locais de culto, determinou que Seus discípulos fossem ao encontro dos pecadores, fossem ao mundo, a fim de lhes levar a mensagem da salvação, o Evangelho[1].

Diante desta inobservância da ordem do Senhor, o inimigo, utilizando-se de suas hostes e de seus agentes, provocou uma desarticulação imensa na Igreja, na medida em que, privadas das reuniões nos templos, as atividades eclesiásticas diminuíram sensivelmente, enfraquecendo a já tímida ação evangelizadora, como também prejudicando sobremaneira o discipulado, que, igualmente, se apresentava muito aquém do desejável.

Está a igreja, diante desta nova realidade, buscando direcionar suas atividades para o chamado “mundo virtual”, o mundo da internet e das redes sociais, a fim de poder cumprir as suas duas principais tarefas: a pregação do Evangelho aos incrédulos e o ensino da sã doutrina aos crentes.

O pastor Expedito Nogueira Marinho, diretor do Seminário Teológico das Assembleias de Deus (SETAD), ensina que a Igreja atua tanto na defensiva, quanto na ofensiva, sendo que a defensiva consiste na preservação da santidade e a ofensiva na realização da missão[2].

A santidade depende, em grande medida, da comunhão entre os santos, pois a santificação, que nada mais é que o crescimento espiritual, exige a interação entre os salvos, com a ação tanto dos ministros constituídos por Cristo para o aperfeiçoamento dos santos (Ef 4.11-16), como também daqueles que recebem do Espírito Santo dons a serem exercidos para edificação, consolação e exortação dos irmãos (1 Co 12.1-11; 14.1-3), sem falar nos dons de serviço (Rm 12.4-8).

As medidas que impedem as reuniões nas igrejas comprometem evidentemente a atuação desses dons e, por conseguinte, a própria marca da vida espiritual de cada crente, pois a vida com Deus nesta peregrinação terrena exige a perseverança na doutrina, na comunhão, no partir do pão e nas orações (At 2.42-47), o que eventuais reuniões ou contatos virtuais não são capazes de suprir a contento.

Ao mesmo tempo, o mundo virtual é abundante em ações e oportunidades consistentes em apologia ao pecado (basta só lembrar a quantidade de material pornográfico existente na rede mundial de computadores) e, nos últimos tempos, o nítido cerceamento que as empresas que concentram e controlam a esmagadora maioria do conteúdo na internet, as chamadas “Big Techs”, têm feito de todas as manifestações que tragam valores consentâneos com as Escrituras Sagradas, de modo que, além de não se ter um sucedâneo à altura da atuação presencial, ainda estamos em um campo minado, onde existem inúmeras oportunidades para levar senão o cristão à prática do pecado, a distraí-lo e a afastá-lo das coisas de Deus.

Como se isto fosse pouco, a evangelização foi sobremaneira prejudicada, conforme já dissemos, seja porque era ela fundamentalmente exercida dentro de uma perspectiva que tem o templo como sede, seja pela própria intensificação de supressão dos espaços públicos causadas pelas medidas tomadas, que feriram de morte as principais atividades evangelizadoras externas (cultos ao ar livre, evangelismo pessoal em espaços públicos, etc.).

Vê-se, portanto, que a desproporcionalidade das medidas mira, numa perspectiva espiritual, precisamente a igreja, enfraquecendo tanto a evangelização quanto o discipulado, as grandes tarefas cometidas pelo Senhor Jesus a Seus discípulos, a mostrar que estamos diante de mais um ataque das hostes espirituais da maldade contra o Evangelho, contra a salvação das pessoas[3].

A amplificação dos efeitos da pandemia por parte da mídia, criando uma situação de terror, ademais, abala a fé de muitos, que tendem a não mais crer que Jesus cure, como também a ter medo da morte e o sentimento do medo somente pode aparecer quando não há o amor de Deus (1 Jo 4.18).

Ora, o Senhor Jesus disse que, no princípio das dores, o amor de quase todos esfriaria por causa do aumento da iniquidade (Mt 24.12) e o surgimento do medo entre muitos que cristãos se dizem ser é uma demonstração clara deste esfriamento.

Dentro deste quadro, vemos que a verdadeira pandemia que se apresenta é a “apostasia espiritual”, ou seja, o desvio da fé, o esfriamento do amor, que é alimentada por esta desarticulação das atividades de preservação da santidade e de evangelização.

Para enfrentar esta pandemia, o remédio é a retomada das atividades da igreja, levando em conta a nova realidade, o “novo normal” que, biblicamente falando, sabemos que veio para ficar.

Por primeiro, devemos, sim, lutar contra os abusos perpetrados contra a liberdade religiosa, buscando, junto às autoridades, o restabelecimento da liberdade religiosa, notadamente em um país como o Brasil que garante a inviolabilidade da liberdade de culto.

Assim, de se aproveitar todas as “brechas” que surgirem nestas determinações, para que se tenha o máximo contato pessoal possível entre os irmãos, obviamente observando todas as legítimas determinações sanitárias para evitar o contágio, pois, acima de qualquer norma de governante, a quem devemos obedecer por força até do que estabelece a Bíblia Sagrada (Mt 22.21; Rm 13.1-7), somente seremos verdadeiros discípulos de Jesus se nos amarmos uns aos outros como Ele nos amou (Jo 15.12) e só mostramos amor quando damos nossa vida pelos amigos (Jo 15.13) e não quando levamos a possibilidade de morte a eles.

Por segundo, devem os salvos estabelecer formas de comunhão que lhes permita o exercício dos dons ante as novas regras de convivência, utilizando-se de todas as ferramentas tecnológicas à disposição, mas jamais se permitindo a uma impessoalização destes relacionamentos, usando das ferramentas para que se tenha um efetivo contato interpessoal.

Por terceiro, notando-se que, como nunca, se aproxima o Arrebatamento da Igreja, volte-se cada salvo à tarefa evangelizadora, utilizando-se também de todos os meios possíveis para pregar o Evangelho, aproveitando toda oportunidade para falar de Cristo a quem ainda não se decidiu pelo Senhor Jesus.

Aqui se deve evitar toda e qualquer distração ou contaminação com material e comportamento perniciosos à nossa vida espiritual (1 Co 15.33; Ef 5.16; Cl 4.5; Fp 2.14; 1 Tm 1.5-7; 6.3-5; 2 Tm 2.14,23; Tt 3.9).

Evidentemente que, para isto, é necessário que se intensifiquem a oração e a meditação nas Escrituras, com o preenchimento dos instantes que eram utilizados na locomoção para buscar a presença do Senhor e, assim, ter o poder do alto para evangelizar e promover a comunhão dos santos nestes dias difíceis.

A verdadeira pandemia que está acometendo o mundo é o aumento da iniquidade, que promove o esfriamento do amor. Que este vírus mortal não nos leve à morte espiritual.

* Evangelista da Igreja Evangélica Assembleia de Deus – Ministério do Belém – sede – São Paulo/SP.


[1] “…Hoje, o conceito de evangelismo realizado no templo é o maior impedimento isolado à evangelização do mundo. Não porque tenhamos templos, mas porque não queremos sair deles em busca dos pecadores (…). Devemos reconhecer que o evangelismo não deve ser centralizado no templo da igreja, muito pelo contrário, seu foco deve ser fora do templo. Não devemos pensar no templo da igreja como um lugar para onde os pecadores devem ser levados para ouvir a pregação do evangelho, mas como um local de oração, adoração e preparo para irmos à busca dos pecadores que estão fora dele.…” (MARINHO, Expedito Nogueira. Missiologia. SETAD, p.23)

[2] “…Se as portas do inferno não prevaleceram contra eles [os cristãos missionários do mundo antigo, observação nossa], o único motivo é porque pararam de lutar na defensiva e na ofensiva. Na defensiva, preservando a santidade, na ofensiva, fazendo missão. (…) A igreja não deve viver somente se defendendo. Embora ela deva lutar na defensiva, precisa agir também na ofensiva. Na defensiva, quando é perseguida fisicamente e atacada moralmente e espiritualmente. Nesse momento, ela precisa usar o escudo da fé (Ef 6.16). Na ofensiva, quando invade o reino de Satanás, empunhando a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus (Ef 6.17)…” (ibid., pp.4,5).

[3] Como disse o pastor Luiz Henrique de Almeida Silva, que mora em Americana/SP, pioneiro das videoaulas de EBD na internet, em mensagem de WhatsApp conosco recentemente: “A verdadeira intenção é fechar as igrejas. Já conseguiram diminuir  metade dos frequentadores de culto. Se a Igreja não tomar uma séria providência, vão acabar com os cultos em mais três meses. Para reaver os crentes, vai ser difícil.…” [15:23, 03/03/2021]

Caramuru Afonso

Caramuru Afonso

Evangelista da Igreja Evangélica Assembleia de Deus - Ministério do Belém - sede - São Paulo/SP, onde é o responsável pelo Estudo dos Professores e Amigos da Escola Bíblica Dominical e professor de EBD. Doutor em Direito Civil e Bacharel em Filosofia pela USP. Juiz de Direito em São Paulo